Nossa cidade de atuação tem área urbana pequena. Mais de 80% de seus habitantes está situado na zona rural, que apresenta assentamentos, loteamentos, reservas indígenas e traz consigo uma carga pesada de lutas por regulação fundiária. Perto dali (na verdade, na cidade ao lado) fica Rio Maria, cidade cujos conflitos pela terra eram tão intensos que levaram boa parte dos revoltosos à morte por assassinato. A saga pela terra, mediada pela Pastoral da Terra, sobretudo nos anos 90, foi registrada num livro marcante: Rio Maria: o canto da Terra, do padre Ricardo Rezende.
Tudo isso pode intensificar a sensação de que estamos diante do exótico, do diferente, do distante. Isso pode incitar os etnocentrismos responsáveis pela sensação de que somos mais civilizados, desenvolvidos, melhores. Aí está nosso maior desafio, em minha opinião. Nas ciências sociais falamos que a atividade do cientista social consiste em "estranhar o cotidiano e aproximar o exótico". Para isso estamos lá. Para aproximar o que antes nos parecia exótico, para compreender, para dialogar e, nesse processo, crescer, amadurecer como profissionais que somos, mas, fundamentalmente, como seres humanos. Nosso desafio será aproximar um Brasil distante, torná-lo parte de nossas concepções artísticas e culturais, literárias, relisiosas, enfim... internalizar - TRAZER ESSE BRASIL PARA DENTRO. Assim, tenho certeza de que a equipe Carajás vai voltar, apesar da saudade, COMPLETA, REPLETA DE UM NOVO BRASIL, formado pela soma desse novo espaço no nosso imaginário tantas vezes tão restrito.Equipe querida!!! Como vocês percebem esse desafio? Sentem-se preparados para ele?

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ResponderExcluirPois é, Pam, que nos livremos daquelas frases tão corriqueiras e das quais fazemos uso nos menores movimentos espaciais que fazemos: que roupas bregas! que comida estranha! que sotaque chato! não acreditam que fazem isso!
ResponderExcluirEnfim, tantos são os comentários que muitas vezes acabamos fazendo quando, por orgulho, saudade, "bairrismo" ou preconceito, estamos fora da nossa terra e diante um "novo mundo".
O desafio não é deixar de estranhar, mas deixar de reagir ao estranhamento com distância. Que possamos acolhar este estranhamento com todo o encantamento que uma novidade pode - e deve! - provocar na vida daquele que se dispõe a olhá-la!