O RONDON é um projeto desenvolvido pelo Ministério da Defesa em parceria com Instituições de Ensino Superior (IES). A Faculdade de Direito de Santa Maria - FADISMA participou, pela primeira vez, deste grandioso projeto de extensão em janeiro de 2011. Desde então, a ideia é nunca mais deixarmos de ser.. RONDONISTAS! Afinal, missão dada, é missão cumprida!
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Ir...voltar por inteiro? Não.
Antes de saber o quanto essa jornada iria modificar tudo o que sou, postei aqui a minha expectativa. Comparei cada rondonista com um dente-de-leão, onde vidas nos retiravam da terra e com um único sopro estaríamos nos espalhando por aí, deixando nossas sementes...nossos "pedaços". O toque divino proposital aconteceu, já na escolha do grupo. Na medida em que convivemos um com o outro, surgiu a oportunidade de conhecermos "eus" escondidos, que ficaram extremamente expostos durante todos aqueles dias. Sentimentos transbordando pela pele, a alegria de nos sentirmos úteis e preenchidos, inteiramente, em cada alma.
Entender o significado de todas aquelas coisas que aprendemos quando somos pequeninos. Saber sobre amor, sobre amizade, sobre coragem, sobre luta, sobre vida. Enxergar através do outro, querendo ajudar de todas as maneiras que existem, tornando o impossível em possibilidades.
Infelizmente eu não pude abraçar Palmeirais como um todo, pois se assim pudesse, teria abraçado cada um...
Quando lembro de alguns relatos que ouvi, dói demais. Dói de saudade e de vontade de ajudar. Interessante relatar não só as coisas mais lindas, mas também aquilo que nos tocou e, que acontece diariamente...vemos na TV, nos jornais, na esquina de nossa casa e precisamos sair, ir para longe, ficar distante de tudo que nos acomoda para sentirmos na pele. Gabriel e Taiguara lembrarão dessa pessoa, com certeza.
Dona Nedina.
Uma senhora de vida sofrida, com seus oitenta e quatro anos, não possuía mais a visão. Eu conseguia sentir a saliva na garganta, por saber que aquela realidade, ali, ficaria para além dos meus quinze dias em Palmeirais. Dona Nedina tinha muitas doenças, dentre elas, se não me engano, cardíaca. Relatou que não tinha condições de comprar os remédios, momento em que o Gabriel perguntou quanto eles custavam. Ela disse: oito reais.
Isso tem o poder de mexer com a gente. Mexer tanto que fica difícil não engolir a saliva, sentir que ficamos mais vulneráveis...o que dizer, nesse caso? O curso de Direito é lindo na teoria, mas sua prática assusta. Lidar com a vida das pessoas não é brincadeira. Para sentir o problema precisamos viver ele, mesmo que através de um relato. Lidar com pessoas traz a responsabilidade tremenda de esquecer um pouco de si, para poder, realmente, ajudar.
Ela ainda disse que iria "fazer do cemitério sua morada", por acreditar que não sobreviveria, que não aguentaria todas as adversidades da vida, não suportaria mais batalhar, sofrer, sentir falta de coisas que para todo o ser humano deveria ser direito.
Dona Nedina foi essencial nesse dia. Estava com saudades de casa e aquilo causou em mim uma sensação que eu jamais tinha sentido. Aquilo me modificou e, as saudades de casa voltaram a ocupar o segundo plano.
No entanto, tive que engolir em seco. Tive que segurar quando ela mencionou que estava triste pois não podia nos ver, mas sabia que éramos lindos. Até hoje, até agora, nesse momento em que escrevo, as lágrimas começam a inundar os olhos...
Dona Nedina não foi a única. Recebi carinhos, abraços, cuidados de inúmeras pessoas... Palmeirais me abraçou, por inteira, pois eu sabia que não poderia abraçar a grandeza daquele lugar.
O mundo é diferente depois do Projeto Rondon. Tudo muda, tudo sai do lugar.
Eu voltei.
Mas preciso dizer. Também fiquei lá.
Postagem do facebook:
"Rondonista sente na pele o calor humano. Isso porque aprende a sentir frio, de uma forma bem incomum: o arrepiar da alma quando percebe que algumas coisas só não avançam nesse país em virtude de outros seres, já não tão humanos, chamados "representantes do povo".
Ser rondonista também significa se sentir impotente. Os quinze dias que nos são dados para descobrirmos que nossa missão de mudar o mundo só pode plantar sementes, não sabendo seus resultados e se nossas propostas e incentivos poderão ser realmente efetuados. Novamente vem a questão dos nossos seres, tão desumanos, representantes.
Um rondonista também passa a enxergar pequenas ações do dia, antes comuns e que passavam despercebidas. O simples exaltar do próprio ego, quando se olha para o outro vendo apenas aquilo que está por fora. Enquanto as aparências forem o primeiro olhar da sociedade, todos nós sofreremos abusos intermináveis.
Participar do Projeto Rondon nos faz ver que nem sempre os lugares distantes, pequenos e talvez esquecidos, precisam de ajuda. Nós é que precisamos, urgentemente, abrir nossos olhos. São humanos muito mais evoluídos. São humanos que aprenderam a olhar o próximo pela sua história de vida, por aquilo que conquistou, pelo que trabalha, pelo que sente e não pelo que tem.
Eu, muitas vezes, me decepciono com a vida que levo, com a facilidade do que tenho e com outros tantos, iguais, que não sabem a gravidade de uma lamentação nas nossas condições. Somos, em nossa totalidade, privilegiados.
Mas o pior não é isso. O pior é que o privilégio de estar na zona de conforto não nos agrada e que nos distanciamos, cada dia mais, da humanidade (o ser).
Ah, Palmeirais. Jamais poderei retribuir o tanto que me ensinou.
Aos descrentes da experiência Rondon, não sabem o que estão perdendo...não duvidem dessa jornada (que leva a nossa alma e jamais traz de volta). Hoje respiro "rondon" e não tenho dúvida alguma: não existe melhor sala de aula que os mais de 8 milhões de km², não há melhor lugar para ser humano do que lá fora, em qualquer lugar do - nosso - Brasil."
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